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A importância das leituras bíblicas nos domingos quaresmais e sua contribuição para o caminho pascal
- Eis o tempo de conversão
- Glorifica o Senhor
 
Mais música para a Quaresma


As leituras do tempo quaresmal apresentam-se como uma nova riqueza na vida da Igreja. Determinados pela finalidade da Quaresma, a celebração da Páscoa, os textos bíblicos levam-nos a entender este tempo à luz da Vigília Pascal. Há uma tela de fundo comum em todos os textos: a renovação da vida cristã.

Por serem leituras que se prolongam ano após ano, a característica principal não está tanto na "novidade", mas no modo em que cada uma delas dá sua contribuição à renovação quaresmal dos fiéis que as usam.

Portanto, a atitude fundamental diante das leituras quaresmais deve ser a de escuta tranqüila e penetrante. Não se trata tanto de meditações, mas de uma contemplação do plano de Deus sobre o homem e sua história. De uma escuta ao chamado de Deus para uma conversão que nos leva à paz, à harmonia e à felicidade.

Domingo - Dia do Senhor!

Os cinco domingos que precedem a Semana Santa, conforme a orientação do Vaticano II (SC 109s), utilizam os elementos batismais próprios da Quaresma, e também aqueles que convidam e conduzem os fiéis à conversão e à penitência.

A concentração desses elementos no Domingo deve-se ao fato de ser nesse dia que se reúne a maior parte das comunidades para as celebrações litúrgicas.

Cada Domingo tem sua feição própria e inconfundível, apesar dos elementos comuns a todos. Isso se faz através dos evangelhos que diferem, a cada Domingo, na sua temática especial. é imprescindível levar em conta também as demais leituras, o Salmo responsorial, as orações, o prefácio e os cânticos. As leituras evangélicas do Domingo formam um conjunto de inegável coerência e unidade interna: trata-se do caminho pascal de Cristo e da participação nele da Igreja através dos sacramentos pascais. Cristo luta contra o mal, vence-o e chega à vitória.

Ciclo das leituras

Para que possamos conhecer os quatro evangelhos completos e partes significativas dos livros do Antigo e do Novo Testamento, as leituras foram repartidas ao longo de três anos. Cada um desses anos é caracterizado por um dos evangelhos chamados "sinóticos". Cada ano forma um ciclo. Os ciclos são designados pelas letras A (quando lemos o evangelho de Mateus), B (o evangelho de Marcos) e C (evangelho de Lucas). O evangelho de João é lido em parte no ano B, e em parte nas festas e tempos fortes do ano litúrgico, como a Quaresma, o tempo pascal, etc. O ciclo C, o terceiro, é aquele dos anos cujo milésimo é divisível por três.

Itinerário quaresmal

Podemos entrever um rico itinerário espiritual através das leituras bíblicas dos domingos da Quaresma. Neste período, a temática das leituras é muito mais variada que em outros tempos litúrgicos. Emergem com facilidade algumas linhas de força, nas quais se deve concentrar a conversão quaresmal.

As leituras evangélicas dos domingos

Não pretendemos aqui fazer um comentário, nem sequer indicativo, aos evangelhos, mas apenas situá-los no conjunto, e sublinhar a sua importância para a caminhada pascal da Igreja.

Quaresma batismal

A linha do Ciclo A é fundamentalmente pascal. Os dois primeiros domingos apresentam toda a história da salvação: a vitória de Cristo contra o poder do mal, durante os quarenta dias no deserto, e a transfiguração de Cristo, onde ele aparece entre Moisés e Elias. Os três sucessivos podem ser definidos "domingos sacramentais", pois as leituras estão ligadas aos efeitos dos sacramentos da iniciação.

Quaresma cristocêntrica

O Ciclo B anuncia a exaltação de Cristo através de sua elevação na cruz. A finalidade é ressaltar o tema da Aliança reconstituída. Os dois primeiros domingos, com a leitura do evangelho de Marcos, retomam os mesmos episódios do ciclo A, o relato da tentação de Cristo e da sua transfiguração. Os três domingos seguintes utilizarão, por sua vez, o evangelho de João.

Quaresma penitencial

Com texto de Lucas, o Ciclo C coloca em relevo a misericórdia de Deus e o convite para acolhê-la. é o tema da conversão. Também este ciclo repropõe, nos dois primeiros domingos, a tentação de Cristo no deserto e sua transfiguração, sendo que esta é apresentada num contexto oracional. Ambas as passagens são de Lucas, evangelho que será utilizado também nos outros domingos, com exceção do quinto, que será de João, com o episódio da adúltera.

Portanto, os dois primeiros domingos da quaresma nos três ciclos já são dias de intensa orientação para o mistério pascal. Mostram-nos o caminho e o fim último de nossa vida aqui na terra, e pedem a Deus forças para percorremos esse caminho no seguimento de Cristo. Nos três domingos seguintes, à luz dos respectivos evangelhos, o tema batismal irá dominar a celebração de todas as missas.

As leituras dominicais do Antigo Testamento

Temos os cinco domingos com perícopes (trechos) diferentes que ocupam, ou devem ocupar, um lugar central tanto na espiritualidade como na catequese. é um bloco de leituras apresentadas com seu devido dinamismo. O conjunto dessas leituras deve ser visto com força, sobretudo como uma visão contemplativa da ação de Deus, protagonista de uma história de salvação. Elas formam, cada ano, um todo catequético independente dos evangelhos.

Os cinco passos dessa história, cada qual à sua maneira, insistem em que o plano de Deus é salvação. Podemos agrupar as 15 leituras em cinco grandes etapas paralelas da história da salvação: da origem ao umbral do Novo Testamento.

Primeiro Domingo - Aliança original: ciclo A : Pecado de Adão; ciclo B: Dilúvio e a aliança com Noé; ciclo C: antigo credo de Israel.

Segundo Domingo - Abraão: ciclo A: a vocação; ciclo B: sacrifício de Isaac; ciclo C: a aliança.

Terceiro Domingo - Moisés: ciclo A: água da rocha; ciclo B: decálogo; ciclo C: sarça ardente;

Quarto Domingo - Davi: ciclo A: a unção como rei; ciclo B: exílio; ciclo C: vocação do povo de Deus;

Quinto Domingo - Anúncio profético da nova aliança: ciclo A: Ezequiel; ciclo B: Jeremias; ciclo C: Isaías.

As diversas etapas da salvação narradas nestes textos constituem, por si só, uma iniciação para adentrar-nos na principal celebração contemplativa da Palavra, tal como nos proporá a liturgia da Vigília Pascal. Nessa noite, voltaremos a percorrer, com outras perícopes, porém com um conteúdo parecido, a mesma história que nos propõem essas leituras dominicais do tempo da Quaresma.

As epístolas

As leituras apostólicas tendem a ser a parte moralizante deste período quaresmal. Tempo de conversão e renovação. Sua função limita-se a ser como um eco, que prolonga a mensagem contida nas leituras do Antigo Testamento, como que para preparar a escuta do evangelho. Nelas não se dá nenhum plano de conjunto. Portanto, não necessitam de um especial esforço de reflexão.

Salmo responsorial

Devemos observar nos domingos quaresmais a riqueza dos cânticos, especialmente dos Salmos. Ajudam a meditar a espiritualidade quaresmal como caminho para a Páscoa, para o regozijo, para a vida renovada.

Ciclo A: arrependimento e pedido de restauração; invocação da misericórdia de Deus; convite à conversão; a esperança em Deus.

Ciclo B: fidelidade de Deus a seu amor; confiança em Deus no meio da adversidade; a Lei, luz e conforto; Deus nos dá um coração novo.

Ciclo C: a proteção e o carinho de Deus; esperança em Deus, luz e salvação; a justiça de Deus é força e misericórdia; a alegria de experimentar a presença de Deus.

Concluindo

Muitas facetas têm certamente as leituras dos domingos da Quaresma. Não pretendemos meditar nem desentranhar todas as possibilidades e conteúdos de cada um deles. Situamos a ótica de cada um, com sua mensagem e espiritualidade, para perceber que cada qual, à sua maneira, leva-nos à renovação pascal que é a finalidade ultima do tempo da Quaresma.

Com a Campanha da Fraternidade, que exige toda a atenção pastoral durante a Quaresma, não podemos perder a imensa riqueza que a liturgia da palavra nos oferece. Ela ilumina a vida e chama à conversão, fortalecendo a confiança na misericórdia de Deus. Lembremos que a própria Campanha não muda as perícopes da liturgia da palavra indicadas no Lecionário.

Sendo convite à vivência do amor ao próximo em suas diversas formas, a CF aborda este ano a questão da água e sua relação com a fraternidade, com o lema: "água, fonte de vida". O símbolo da água é central na liturgia do batismo. Batizar quer dizer "mergulhar".

A Quaresma é tempo de preparação para a celebração do batismo na Páscoa, para aqueles que nestes dias são iniciados através dos sacramentos da iniciação cristã, ou para aqueles que renovam seu compromisso batismal na renovação das promessas do batismo.

Focalizando bem o mistério do batismo como morte e ressurreição com Cristo, a água poderá também acompanhar diversos gestos individuais ou comunitários em certas ocasiões. A espiritualidade batismal pode também dar uma orientação mais cristã a toda a nossa vida, salientando que seu fim não é o sofrimento e a morte, mas a alegria e a vida.

é importante fazer um esforço para situar-os corretamente diante do conjunto de leituras de cada ciclo litúrgico. Mais do que buscar uma explicação das mesmas, há que descobrir que são elas que têm por função ser comentário e explicação.

Pe. José Luiz Majella Delgado, C.Ss.R.